II Mostra de Vacinação reforça a importância da comunicação para recuperação das coberturas vacinais no SUS

II Mostra de Experiências Exitosas da Gestão Estadual do SUS para Recuperação das Coberturas Vacinais acontece em Brasília com a participação de autoridades de profissionais de saúde

Brasília – Com o objetivo de fortalecer as ações de imunização em todo o País e promover a troca de experiências bem-sucedidas entre os estados, o Conass dá início, nesta terça-feira, 16, à II Mostra de Experiências Exitosas da Gestão Estadual do SUS para Recuperação das Coberturas Vacinais.

O evento, que acontece até amanhã, reúne as Câmaras Técnicas do Conass de Epidemiologia, Atenção Primária à Saúde e Comunicação em Saúde, além de coordenadores estaduais de imunização, gestores e equipes técnicas das Secretarias Estaduais de Saúde, representantes do Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS).

Nereu Henrique Mansano, assessor técnico do Conass e coordenador da Mostra, esclareceu que o objetivo é compartilhar estratégias que vêm contribuindo para a retomada das coberturas vacinais, fortalecer a atuação interfederativa e construir soluções conjuntas para enfrentar os desafios da imunização no Brasil.

 No primeiro dia do evento, o destaque foi para a importância da comunicação no processo de retomada da confiança da população nas vacinas, como explicou a representante adjunta da Opas/OMS no Brasil, Elisa Pietro, durante a abertura do encontro. “A recuperação das coberturas vacinais é um desafio regional, fortemente impactado pelos efeitos da pandemia, pelas dificuldades de acesso aos serviços de saúde e pelo aumento da desinformação. A retomada das coberturas vacinais exige comunicação estratégica e a reconstrução da confiança da população nas vacinas”, pontuou, observando em seguida que a Opas tem grande interesse em apoiar a divulgação e a disseminação das iniciativas selecionadas.

Representando o Conass, o secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcanti, ressaltou que a queda das coberturas vacinais vai além dos indicadores registrados nos sistemas de informação. “Ela representa o enfraquecimento de barreiras de proteção construídas ao longo de décadas e o retorno de doenças que já não faziam parte das preocupações dos gestores. Recuperar essas coberturas depende da união de esforços entre estados, municípios e governo federal”, destacou.

Para Juracy, a troca de experiências é um dos maiores pilares do Sistema Único de Saúde (SUS). “Aprender com o outro é a essência do SUS. Cada dose aplicada não representa apenas um número, mas uma doença evitada, uma internação prevenida e uma família protegida”, completou.

Já a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Mariângela Simão, reforçou o compromisso da pasta com a recuperação das coberturas vacinais. “Altas coberturas vacinais são essenciais para avançarmos na eliminação de doenças. O ato de vacinar é um ato de promoção do bem comum e é exatamente por isso que estamos aqui compartilhando experiências exitosas”, afirmou.

A relação entre imunização e fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) também esteve entre os temas abordados durante a programação, como disse o diretor do Departamento de Estratégias e Políticas de Saúde Comunitária do Ministério da Saúde, José Eudes Barroso. “Estamos falando de acesso, vínculo, longitudinalidade e continuidade do cuidado. Quando tratamos a imunização como estratégia de cuidado, ampliamos a capacidade dos serviços de saúde de responder às necessidades da população”, explicou.

Para a representante do Conasems, Candice Falcão, apesar dos desafios enfrentados nos últimos anos, especialmente em relação à desinformação, o SUS demonstrou sua capacidade de mobilização e resposta. “Muitas coberturas que estavam em níveis preocupantes foram recuperadas e essa retomada não é resultado de uma ação isolada, mas de um trabalho conjunto entre estados, municípios e União, com a participação das equipes de imunização, da atenção básica, dos agentes comunitários de saúde e de toda a sociedade”, destacou.

O vice-presidente da SBIm, Renato Kfouri destacou a parceria histórica da entidade com o Programa Nacional de Imunizações (PNI) e com as secretarias estaduais e municipais de saúde.

Kfouri observou ainda que, em um contexto marcado pela circulação de informações falsas, torna-se ainda mais importante ampliar o acesso da população e dos profissionais de saúde a conteúdos científicos confiáveis. “O Brasil possui um dos maiores programas de imunização do mundo e continua avançando com a incorporação de novas vacinas. No entanto, tão importante quanto disponibilizá-las é garantir que a população compreenda sua importância e segurança”, afirmou.

Kfouri destacou ainda que o compartilhamento de experiências entre diferentes regiões do País fortalece as estratégias de imunização e contribui para afastar o risco do retorno de doenças imunopreveníveis.

 Desafios da imunização frente ao avanço da desinformação em saúde

Os desafios da imunização frente ao avanço da desinformação em saúde abriram os debates em uma mesa que reuniu o diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde (DPNI), Eder Gatti; o vice-presidente da SBIm, Renato Kfouri; a professora da Universidade de Brasília (UnB), Valéria Mendonça; e a jornalista especializada em saúde da Folha de S.Paulo, Cláudia Collucci.

O debate foi coordenado pelo gerente de Comunicação do Conass, Marcus Carvalho, que destacou a relevância estratégica da comunicação para o fortalecimento das políticas públicas de saúde.

Ele observou que a retomada das coberturas vacinais acontece em um momento decisivo para o PNI, historicamente reconhecido como referência internacional. Para ele, a comunicação deve ocupar um papel central desde a formulação das políticas públicas e não apenas na divulgação de ações já definidas. “A comunicação é o que permite que as políticas públicas se concretizem. Não se trata apenas da comunicação demandada, mas de uma área estratégica que participa da construção das soluções desde o início”, afirmou. Ele também ressaltou que a desinformação em saúde se tornou um problema complexo e transversal, que impacta diretamente diversas áreas da saúde pública.

Durante sua apresentação, Eder Gatti fez uma retrospectiva de episódios que colocaram à prova a confiança da população nas vacinas e destacou a importância da forma como gestores e instituições respondem a situações de crise. Ao apresentar experiências relacionadas à comunicação de eventos adversos pós-vacinação, o diretor do PNI reforçou que a confiança da população é construída não apenas pela eficácia das vacinas, mas também pela transparência na condução das informações e pela capacidade de resposta dos serviços de saúde. “A construção da confiança exige compromisso permanente com a transparência e a segurança”, destacou.

Ao abordar os desafios da comunicação em saúde, Renato Kfouri apontou três fatores que contribuem para o fortalecimento da desinformação sobre vacinas. O primeiro deles é a redução da percepção de risco provocada pelo sucesso dos programas de imunização. “Quando as doenças deixam de circular ou se tornam raras, muitas pessoas passam a acreditar que não precisam mais se vacinar. Esse cenário acaba se tornando um terreno fértil para os movimentos antivacina”, explicou.

A desinformação em saúde abriu os debates no primeiro dia do evento e enfatizou a importância da comunicação na retomada da confiança da população nas vacinas

Outro desafio, segundo ele, está na dificuldade de diferenciar temporalidade e causalidade em eventos que ocorrem após a vacinação. “Muitas situações de saúde acontecem naturalmente após a aplicação de uma vacina, sem que exista relação de causa e efeito. Comunicar essa diferença é um dos grandes desafios da farmacovigilância e da comunicação em saúde”, afirmou.

Kfouri também alertou para a velocidade com que conteúdos enganosos se espalham nas redes sociais e para a dificuldade de comunicar, de forma clara, a relação entre riscos e benefícios das vacinas.

A jornalista Cláudia Collucci destacou que a sociedade vive uma mudança de paradigma. Se no passado o problema era a falta de informação, hoje o excesso de conteúdos e a circulação de informações falsas representam um dos maiores desafios para gestores e comunicadores.

Segundo ela, a comunicação não pode ser tratada como uma etapa final das políticas públicas. “É preciso que os gestores compreendam o que está circulando nos territórios e nas redes sociais para que as respostas sejam dadas em tempo oportuno”, afirmou.

Cláudia também chamou atenção para a diferença de velocidade entre o jornalismo profissional e a disseminação de conteúdos nas redes. Enquanto informações jornalísticas exigem apuração e validação de fontes, notícias falsas circulam rapidamente, alcançando milhões de pessoas em poucas horas.

Encerrando o debate, a professora Valéria Mendonça abordou os desafios contemporâneos da comunicação em saúde e definiu a desinformação como um fenômeno que envolve a produção e a circulação deliberada de conteúdos falsos ou enganosos capazes de influenciar comportamentos, comprometer políticas públicas e enfraquecer a confiança da população nas instituições. “Existe desinformação em vários setores, mas costumo dizer que na Saúde, especificamente, a desinformação mata”, disse.

Para ela, o enfrentamento desse cenário exige mais do que a simples correção de informações falsas, sendo necessário fortalecer o letramento informacional, ampliar a capacidade crítica dos cidadãos e aproximar a produção de evidências científicas das decisões de gestão e das práticas desenvolvidas nos territórios. “Traduzir conhecimento em informação acessível e confiável torna-se uma estratégia essencial para fortalecer a confiança pública no SUS e nas vacinas”, concluiu.

O Papel da APS na recuperação das coberturas vacinais

Coordenada pela assessora técnica do Conass, Maria José Evangelista, a mesa sobre o papel da APS na recuperação das coberturas vacinais reuniu especialistas para discutir como a organização das Redes de Atenção à Saúde (RAS) influencia diretamente os resultados da imunização.

O consultor do Conass, Eugênio Vilaça Mendes, abriu o debate abordando um dos principais desafios enfrentados pelos sistemas de saúde contemporâneos: a fragmentação do cuidado. Segundo ele, trata-se de um problema complexo que exige mudanças estruturais na forma como os serviços são organizados. “Todos os países, independente das suas condições financeiras, enfrentam uma crise profunda relacionada à fragmentação do cuidado. O modelo de atenção que ainda praticamos foi concebido para responder aos problemas do século passado e não às necessidades atuais”, afirmou.

Para ele, a superação desse cenário passa pela consolidação das RAS, organizadas a partir de uma lógica sistêmica e integrada, em que a Atenção Primária ocupa posição central na coordenação do cuidado.

Ao abordar a organização dos processos preventivos nas redes de atenção, Eugênio destacou que a vacinação é um dos mais importantes indicadores da capacidade coordenadora da APS e atributos como primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado são fundamentais para garantir o acesso oportuno às vacinas e o acompanhamento contínuo da população.

Em seguida, Eliane Chomatas, consultora do Conass, enfatizou que, diante de um cenário marcado pela queda histórica das coberturas vacinais e pelo reaparecimento do risco de doenças imunopreveníveis é urgente a necessidade de reorganização dos processos de trabalho da atenção primária. Para ela, a vacinação deve ser encarada como o principal indicador da capacidade coordenadora da APS.

Eliane detalhou a importância de articular os macro e microprocessos no dia a dia das unidades de saúde e defendeu a transição definitiva do modelo fragmentado para um modelo integrado, apoiado na territorialização, no cadastro atualizado, no planejamento baseado em riscos e vulnerabilidades e na forte articulação intersetorial com creches e escolas.

Já no plano dos microprocessos da sala de vacina, destacou ações imediatas como a garantia da oportunidade vacinal em todos os contatos do usuário com o serviço, o controle rigoroso de faltosos e o fortalecimento da busca ativa nominal e domiciliar. “As equipes a assumirem sua responsabilidade sanitária, focando no conhecimento real dos não vacinados no território e na efetiva produção de saúde, superando a mera execução burocrática de procedimentos”, concluiu.

O diretor do Departamento de Estratégias e Políticas de Saúde Comunitária do Ministério da Saúde, José Eudes Barroso, ampliou a reflexão ao defender que a vacinação deve ser compreendida como parte integrante do cuidado em saúde e não apenas como um procedimento administrativo. “Quando discutimos recuperação das coberturas vacinais, à primeira vista parece que estamos tratando de um tema específico. Mas, na verdade, estamos falando sobre como organizamos o cuidado das pessoas nos territórios”, afirmou.

Para ele, a imunização deve estar inserida em uma lógica de cuidado contínuo, baseada na construção de vínculos entre equipes de saúde e usuários. “Precisamos olhar a vacinação como um processo de cuidado, no qual assumimos a responsabilidade sanitária pelas pessoas e atuamos de acordo com suas necessidades”, destacou.

José Eudes também provocou os participantes a refletirem sobre qual modelo de Atenção Primária é capaz de sustentar, de forma permanente e equitativa, altas coberturas vacinais. Segundo ele, a resposta passa pelo fortalecimento dos atributos essenciais da APS, pela ampliação do acesso aos serviços e pela capacidade das equipes de conhecerem os contextos de vida das populações sob sua responsabilidade.

A mesa reforçou que a recuperação das coberturas vacinais depende não apenas da disponibilidade dos imunizantes, mas também da capacidade dos serviços de saúde de coordenar o cuidado, estabelecer vínculos com a população e garantir ações preventivas de forma contínua e integrada em todos os territórios.

Apresentações Eixo 1 – Apoio técnico aos municípios e ações de educação permanente 

Fechando o primeiro dia da Mostra e iniciando as apresentações das experiências selecionadas para exposição oral, os estados do Maranhão, Distrito Federal, Paraná, Tocantins e Minas Gerais compartilharam suas iniciativas práticas para a retomada das coberturas vacinais, referentes ao eixo 1 – apoio técnico aos municípios e ações de educação permanente. A mesa foi coordenada por Ana Catarina de Melo, coordenadora-geral de incorporação científica e imunização.

O Maranhão focou na institucionalização do microplanejamento e na qualificação das equipes para consolidar atividades de vacinação de alta qualidade nos territórios. Já a experiência do Distrito Federal apresentou a estratégia de educação e comunicação em rede para a implantação do anticorpo monoclonal nirsevimabe, focado na proteção de recém-nascidos contra o Vírus Sincicial Respiratório.

No Paraná o uso da plataforma Paraná Saúde Digital, aliada a capacitações in loco na Atenção Primária, recuperou de forma expressiva a cobertura da vacina BCG.

Tocantins apresentou como organizou uma rápida e articulada resposta tripartite para a contenção de um surto de sarampo no município de Campos Lindos, baseada em forte busca ativa e varredura vacinal.

Por fim, Minas Gerais destacou os avanços obtidos a partir de sua cooperação técnica com a Opas e universidades, com projetos voltados ao enfrentamento da hesitação vacinal e à reestruturação do acesso a imunobiológicos especiais.

A II Mostra de Experiências Exitosas da Gestão Estadual do SUS para Recuperação das Coberturas Vacinais continua amanhã com as apresentações das experiências dos eixo 2 (Ações para facilitar o acesso às vacinas); eixo 3 ( Campanhas de comunicação e ações de enfrentamento da desinformação) e eixo 4 (Sistemas de informação e integração de dados). O evento está sendo transmitido ao vivo pelo canal do Conass no youtube,

Ao todo 109 experiências foram selecionadas. Acesse aqui aquelas selecionadas para exposição em pôster.

Assessoria de Comunicação do Conass

Fonte: www.conass.org.br

Noticias Relacionadas

Categorias

Redes Sociais