Além da consulta online, a telemedicina também é usada em diversas situações. Entenda quando ela resolve, quando não substitui o cuidado presencial e como o futuro já está mudando o cuidado à distância

Consultas online, monitoramento e até tratamentos à distância são algumas das possibilidades da telemedicina. Elas ajudam desde pacientes com doenças crônicas e dificuldade de locomoção até pessoas que precisam de um retorno simples ou orientação sem sair de casa.
Ao mesmo tempo em que a modalidade aumentou seu leque, as dúvidas dos pacientes também cresceram. O que pode ser feito à distância? Em quais situações uma consulta por vídeo não substitui a ida ao médico? Quantos recursos existem além da teleconsulta?
Tiramos essas e outras dúvidas com o médico de família e comunidade Thiago Cabral, doutor em Ciências e médico diarista do Hospital do Coração em Natal (RN).
O que é telemedicina?
É o uso da tecnologia para que médicos e pacientes possam trocar informações, realizar atendimentos e acompanhar a saúde à distância, sem a necessidade de estarem no mesmo ambiente físico.
Embora esse conceito já existisse há tempos, ele ganhou enorme destaque durante a pandemia. “Esse período pediu que pessoas no mundo todo continuassem sendo atendidas e tratadas com segurança, graças à tecnologia e à capacitação dos médicos para o uso das ferramentas digitais”, diz Cabral.
Quais são as vantagens da telemedicina?
Sobre as consultas online, os benefícios têm respaldo científico. Um estudo publicado pelo Journal of Medical Internet Research, que avaliou mais de mil pacientes de diversas faixas etárias, confirmou o impacto positivo do atendimento remoto. As maiores vantagens observadas foram:
- economia de tempo e dinheiro: eliminação de gastos e do estresse com grandes deslocamentos;
- acesso ampliado: oportunidade de consulta com especialistas localizados em outras cidades ou em grandes centros de referência;
- continuidade do cuidado: maior adesão ao acompanhamento médico devido à comodidade para o paciente e para a equipe de saúde.
Quais são as possibilidades da telemedicina, além da consulta online?
Embora a consulta online seja o formato mais conhecido, o cuidado à distância é muito mais amplo:
- telemonitoramento: acompanhamento contínuo por meio de dispositivos como smartwatches e outros wearables — aparelhos eletrônicos feitos para serem integrados à roupa ou usados como acessórios, como smart rings —, sensores de glicose ou medidores de pressão digitais. Os dados são registrados pelo paciente ou integrados a plataformas médicas para avaliação;
- teletriagem: uma avaliação inicial remota para definir a gravidade, necessidade de atendimento presencial e encaminhamento adequado;
- telediagnóstico: usado para interpretação de exames e emissão de laudos à distância;
- teleinterconsulta: discussão de um caso clínico entre o médico assistente e outro especialista, via vídeo, com o objetivo de alinhar a conduta do tratamento;
- teleconsultoria: troca de informações entre profissionais da saúde para o esclarecimento de dúvidas técnicas, administrativas ou assistenciais relacionadas ao cuidado do paciente;
- telecirurgia: realização de procedimentos cirúrgicos por meio de robôs controlados à distância por cirurgiões especialistas.
Quando a telemedicina é indicada?
A telemedicina pode ser indicada nas seguintes situações:
- retornos médicos: consultas de acompanhamento para avaliar a resposta a um tratamento iniciado;
- acompanhamento de doenças crônicas: monitoramento contínuo de condições como diabetes e hipertensão;
- avaliação inicial de sintomas leves: orientação rápida para quadros agudos de baixa gravidade, como resfriados ou mal-estar leve;
- revisão de exames: apresentação de resultados laboratoriais ou de imagem para a definição da conduta;
- orientações pós-cirúrgicas: verificação da evolução da cicatrização e esclarecimento de dúvidas sobre a recuperação;
- acompanhamento de idosos ou pacientes com restrição de mobilidade: acesso à saúde para quem tem dificuldade de deslocamento;
- cuidados em saúde mental: consultas com psiquiatras e psicólogos para suporte emocional e terapias regulares.
Para o médico, na maioria dos casos, é perfeitamente possível identificar um diagnóstico sindrômico (um conjunto de sinais e sintomas compatíveis com determinado quadro clínico), definir o tratamento e monitorar a evolução do paciente, muitas vezes antes de exames complementares.
Além disso, a telemedicina permite que o médico de confiança (como o geriatra ou o médico de família) converse, sem limites de distância, com outros especialistas para alinhar o caso e alcançar melhores resultados.
Então, nesses casos, ela “resolve”?
Na saúde, Cabral explica que a palavra “resolver” pode dar a ideia de um ponto final, enquanto o cuidado com o corpo é um caminho contínuo.
“O acompanhamento ao longo do tempo, que chamamos de longitudinalidade, é o fundamento de uma boa prática médica. E é sob essa perspectiva que a telemedicina se mostra altamente resolutiva”, pontua.
E quando é melhor optar por uma consulta presencial?
Embora regulamentada pela Lei Federal n.º 14.510/2022 e pela Resolução CFM n.º 2.314/2022, a telemedicina possui limites claros. “Situações de instabilidade clínica ou a presença de sinais de alerta não devem ser conduzidas sem avaliação física adequada e, muitas vezes, sem exames complementares de urgência”, alerta Cabral.
Ele explica que o atendimento remoto não resolve casos que exigem palpação ou que apresentam variações súbitas de saúde que pedem monitoramento de urgência. O suporte presencial torna-se indispensável quando a segurança do paciente exige essa análise clínica imediata.
Para traçar uma linha mais tangível, diretrizes do Ministério da Saúde e protocolos nacionais de triagem determinam que o atendimento remoto deve ser totalmente descartado diante de ocorrências de alta gravidade, como:
- dor no peito ou falta de ar: são considerados sinais de alerta vermelho para condições graves, como infarto agudo do miocárdio ou embolia pulmonar;
- dor abdominal intensa: exige palpação física e exames para descartar quadros cirúrgicos de urgência, como a apendicite, que pode evoluir para infecção generalizada;
- desmaios e alterações neurológicas súbitas: perda repentina da fala, boca torta, confusão mental ou perda de força de um lado do corpo podem indicar um início de Acidente Vascular Cerebral (AVC);
- traumas, acidentes ou fraturas: necessitam de exames de raio-X ou tomografia, além de imobilização física;
- suspeita de infecção grave: quadros com febre muito alta associada a confusão mental ou rigidez na nuca exigem exames laboratoriais de urgência.
Diante de qualquer um desses sintomas, deve-se procurar o hospital mais próximo ou acionar imediatamente o SAMU pelo telefone 192.
Telemedicina e a democratização do cuidado
“A telemedicina veio para todos. Ela amplia o acesso à saúde e conecta pacientes a médicos generalistas e especialistas focais”, afirma o médico de família e comunidade.
De acordo com o profissional, a descentralização beneficia especialmente moradores de áreas remotas ou de pequenas cidades, pacientes crônicos, idosos e pessoas com dificuldade de locomoção ou sem suporte social adequado.
Além de encurtar distâncias geográficas, a democratização se reflete na qualidade do ecossistema de saúde: a modalidade acelera a troca de informações entre profissionais de diferentes especialidades, gerando um acompanhamento muito mais contínuo, seguro e integrado para o paciente.
Como se preparar para uma consulta online?
Um estudo publicado no Journal of Medical Internet Research aponta que a velocidade da internet e a usabilidade dos sistemas são as maiores barreiras para a telemedicina. Para superar tanto os desafios técnicos quanto os logísticos, siga este passo a passo prático antes do horário agendado:
- teste tudo antes: verifique se o microfone e a câmera estão funcionando e se a conexão está estável;
- garanta privacidade e boa luz: escolha um ambiente bem iluminado e privativo para evitar interrupções e poder conversar abertamente com o médico;
- organize seu histórico clínico: deixe os exames recentes e receitas por perto e anote os sintomas e dúvidas;
- auxilie quem precisa: se a consulta for para uma criança, idoso ou para alguém com menos intimidade com a tecnologia, esteja presente para dar suporte do início ao fim.
Cabral ressalta que, apesar dos desafios de adaptação, a barreira cultural está diminuindo: “A familiaridade crescente com telefones celulares com vídeo tem permitido, a cada dia, maior acesso dos diferentes públicos à telemedicina.”
O que esperar do futuro da telemedicina?
A telemedicina híbrida — que combina consultas presenciais com monitoramento digital — é a principal tendência. Uma das ferramentas para o novo formato é a integração total de relógios inteligentes e sensores de glicose para uma conexão direta com o prontuário eletrônico.
Entre outros avanços, procedimentos minimamente invasivos feitos por robôs menores e mais especializados se tornarão mais comuns nos hospitais devido a custos mais reduzidos.
Um estudo da consultoria McKinsey mostra que 70% dos líderes globais de saúde já adotaram ou estão implantando novas tecnologias. No Brasil, a pesquisa TIC Saúde 2024, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), aponta que a inovação já faz parte da rotina assistencial: 17% dos médicos e 16% dos enfermeiros utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa em suas rotinas de trabalho.
Já uma reportagem da Forbes Tech aborda o uso da inteligência artificial além dos diagnósticos e tratamentos, pois otimiza a gestão dos hospitais e melhora a experiência do paciente por meio de três pilares:
- atendimento personalizado, desenhado sob medida para cada pessoa e suas respectivas condições de saúde;
- redução da burocracia: automação de registros médicos para que as equipes passem menos tempo digitando e mais tempo com os pacientes;
- comunicação acessível: uso de assistentes virtuais para facilitar o contato entre médicos, pacientes e familiares.
Fonte: www.anahp.com.br



