Canetas emagrecedoras: o que são, como funcionam e quando são indicadas

Entenda as diferenças entre Ozempic, Saxenda, Mounjaro e Wegovy, seus benefícios, riscos e por que o tratamento exige acompanhamento contínuo

Nos últimos anos, as chamadas “canetas emagrecedoras” deixaram de ser um assunto restrito aos consultórios. Hoje, aparecem nas redes sociais, nas conversas entre amigos e até como promessa de solução rápida.

Apesar da popularização, porém, pouco é citado o fato de que esses remédios foram criados para tratar doenças crônicas: primeiramente, diabetes e, mais tarde, também descobriu-se o efeito emagrecedor.

A descoberta veio em meio a um cenário de alerta. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo. No Brasil, um levantamento do Ministério da Saúde mostra que quase 60% dos adultos estão acima do peso.

Para entender o que está por trás dessas medicações — e, principalmente, quais são os limites de uso —, ouvimos Amanda Valadares, endocrinologista do Hospital Brasília, da Rede Américas.

Afinal, o que são as “canetas emagrecedoras”?

O apelido vem do formato do dispositivo usado na aplicação: uma espécie de caneta que injeta as medicações sob a pele. Elas imitam a ação do GLP-1, um hormônio produzido pelo intestino que controla o apetite, aumenta a sensação de saciedade, desacelera o esvaziamento do estômago e ajuda a controlar a glicose no sangue.

Ozempic? Monjauro? Entenda os tipos e diferenças entre as canetas emagrecedoras

Apesar de serem colocadas no mesmo grupo, existem diferenças importantes. “Cada medicamento possui indicações específicas e esquemas de uso diferentes, conforme cada necessidade”, explica a endocrinologista. Veja:

  • Saxenda ou Olire (liraglutida): foi um dos primeiros aprovados especificamente para o tratamento da obesidade. 
  • Ozempic (semaglutida): tem indicação para o tratamento do diabetes tipo 2, mas vem sendo utilizado para auxiliar na perda de peso.
  • Wegovy (semaglutida): tem o mesmo princípio ativo do Ozempic, porém em concentrações mais altas e com aprovação específica para o tratamento da obesidade e sobrepeso.
  • Mounjaro (tirzepatida): possui dupla ação, pois simula dois hormônios simultaneamente (GLP-1 e GIP, com funções semelhantes, mas com ação complementar na resposta à insulina), apresentando resultados ainda mais expressivos na perda de peso e no controle metabólico.

O que muda no corpo ao usar a caneta?

Os medicamentos agem em diferentes partes do organismo, em três frentes principais:

  1. Centro de saciedade: atuam diretamente no hipotálamo, a região do cérebro que regula o apetite. O resultado é uma sensação de saciedade mais forte e precoce após as refeições.
  2. Sistema de recompensa e prazer: influenciam as áreas cerebrais ligadas à satisfação. “As medicações atuam nas vias de recompensa do cérebro, responsáveis pelo ‘comer hedônico’ — aquele ato de comer motivado por prazer, estresse, tédio ou busca por conforto emocional”, diz. Na prática, isso reduz o que a médica chama de “ruído alimentar” (pensamentos frequentes sobre comida) e diminui a fissura por alimentos ricos em açúcar e gordura.
  3. Sistema digestivo: retardam o esvaziamento gástrico. Com isso, o alimento permanece mais tempo ali, prolongando a sensação de saciedade e mantendo a fome sob controle por muito mais tempo após as refeições.

Quem pode usar caneta emagrecedora?

A indicação é precisa e focada na saúde do paciente, não apenas na balança. De acordo com a endocrinologista, o protocolo é indicado para:

  • Pessoas com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30 kg/m² (obesidade).
  • Pessoas com IMC acima de 27 kg/m² (sobrepeso), desde que associado a pelo menos uma condição relacionada ao excesso de peso, como hipertensão, pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol ou triglicerídeos elevados, gordura no fígado ou apneia do sono.

Quem não pode usar caneta emagrecedora?

Esses remédios são estritamente contraindicados para gestantes, pessoas que estão amamentando e pacientes com histórico pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide ou da Síndrome de Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 (NEM2).

“Além disso, a prescrição exige cautela extrema e avaliação individualizada em pacientes com histórico de distúrbios alimentares graves ou depressão severa não tratada”, alerta Valadares.

Além da perda de peso, quais são os benefícios das canetas emagrecedoras?

“A grande revolução dessas medicações é que elas não são apenas ‘emagrecedoras’, mas também protetoras metabólicas e cardiovasculares”, conta a endocrinologista.

O estudo SELECT, conduzido com mais de 17 mil pacientes e publicado na revista científica New England Journal of Medicine (NEJM), apontou que a terapia reduz em cerca de 20% o risco de eventos graves, como infarto e AVC, em pessoas não diabéticas com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular prévia.

O tratamento ainda ajuda na redução da gordura no fígado, auxilia no controle da pressão arterial e melhora quadros de apneia do sono.

Já para os pacientes com diabetes tipo 2, o estudo FLOW (também publicado no NEJM e conduzido com mais de três mil pacientes) pontuou que a medicação diminui a perda de proteínas pela urina — um importante sinal de alerta para danos nos rins — e reduz a progressão da doença renal crônica, prevenindo mortes por essa condição.

Quais são os efeitos colaterais das canetas emagrecedoras?

Os mais comuns são:

  • náuseas;
  • vômitos;
  • diarreia;
  • constipação;
  • azia;
  • eructações (arrotos); e
  • dor abdominal.

Geralmente, eles são transitórios e ocorrem durante a fase de adaptação ou aumento da dose.

Outros eventos adversos possíveis

Diferentemente dos efeitos colaterais, que têm relação direta ao uso de um medicamento, os eventos adversos podem acontecer durante o tratamento, mas sem relação causal comprovada.

No caso das canetas emagrecedoras, eles podem acontecer como resposta do corpo à perda de peso rápida ou a outras condições associadas:

  • Pedras na vesícula e queda de cabelo: não são causadas pela medicação em si, mas podem ocorrer em casos de emagrecimento intenso.
  • Insuficiência renal: a medicação não “ataca” os rins. O risco de insuficiência renal aguda está associado à desidratação severa, geralmente causada por vômitos ou diarreia intensos, persistentes e não tratados.

Posso usar uma caneta emagrecedora sem receita?

Não — inclusive porque a falta de acompanhamento pode comprometer o efeito desejado. “O sucesso do tratamento não está apenas na molécula em si, mas na inteligência clínica por trás de sua aplicação”, afirma Valadares.

O acompanhamento especializado segue um plano organizado: entender como o metabolismo da pessoa funciona, definir a dose ideal e o ritmo seguro de perda de peso, gerenciar a composição corporal, monitorar a perda de gordura (preservando os músculos) e saber como agir na fase de manutenção.

Sem isso, a pessoa corre o risco de desenvolver pancreatite aguda, obesidade sarcopênica (excesso de gordura corporal combinado à perda de massa muscular), fraqueza intensa, perda excessiva de massa muscular, desidratação grave e desnutrição, entre outras sérias complicações.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda imediata

  • Dor abdominal intensa e persistente: pode irradiar para as costas, podendo indicar quadros como a pancreatite;
  • vômitos constantes e desidratação severa: incapacidade de manter líquidos no estômago, provocando sinais de alerta, como redução no volume de urina, tontura ou visão escurecida ao levantar, confusão mental, além de letargia (estado de lentidão extrema);
  • inchaço abdominal severo: barriga inchada, rígida e dolorosa, acompanhada pela interrupção total da eliminação de gases e de fezes.

Posso usar monjauro manipulado ou “do Paraguai”?

Medicamentos falsificados ou contrabandeados não possuem garantia de origem ou de armazenamento. Muitos perdem completamente o efeito, enquanto outros contêm substâncias tóxicas.

“Esses produtos podem esconder desde farinha até compostos perigosos, como a insulina — que, sem o devido acompanhamento médico, pode provocar hipoglicemia fatal — ou hormônios da tireoide, capazes de gerar danos em todo o organismo”, alerta a médica.

Segundo o portal Agência Brasil, em razão dos riscos à saúde da população, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem tomado uma série de medidas para coibir o comércio ilegal, que inclui versões manipuladas sem autorização.

Farmácias de manipulação não têm acesso à molécula original e, muitas vezes, utilizam compostos que não foram testados em humanos. Não são aprovados pelas agências reguladoras e não têm sua segurança ou eficácia comprovadas. O risco de reações graves e contaminação é muito alto.

Se parar o tratamento com a caneta emagrecedora, o peso volta?

A obesidade é uma doença crônica e recidivante — ou seja, tende a voltar ao longo do tempo.

Um ano após a suspensão da semaglutida, pacientes recuperam, em média, dois terços do peso perdido, mostraram dados da extensão do estudo STEP 1, que analisou 1950 pacientes e foi publicado na revista científica NEJM. Além disso, os marcadores de risco cardiometabólico voltaram a piorar. 

O reganho de peso não acontece simplesmente pela suspensão da medicação, mas por respostas naturais do organismo ao emagrecimento. Por isso, o acompanhamento médico é essencial para manter os resultados ao longo do tempo.

As canetas emagrecedoras funcionam sozinhas?

Sem mudar o estilo de vida, o emagrecimento a longo prazo acaba não perdurando, podendo trazer prejuízos estéticos e funcionais. Por isso, Valadares reforça três pontos de cuidados, com ou sem canetinha:

Alimentação

A medicação tira a fome, mas não escolhe o que o paciente come. Sem adequação de proteínas e nutrientes, há desnutrição e perda severa de massa magra.

​Atividade física

O treinamento de força (musculação) é crucial. O músculo é o nosso principal “motor” metabólico — por isso, perder músculo significa deixar o metabolismo mais lento, facilitando o reganho de peso (efeito sanfona).

Saúde mental

A obesidade tem profundas raízes comportamentais e emocionais. Quando a relação com a comida e os gatilhos emocionais não são trabalhados, a interrupção da medicação — ou mesmo sua adaptação ao longo do tempo — leva o paciente a comer mais como forma de compensação.

Fonte: www.anahp.com.br

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