Testosterona baixa é assunto em alta nas redes sociais. Mas a reposição exige critérios e acompanhamento profissional para garantir que benefícios não se tornem riscos

Mais disposição, melhora no desempenho sexual, ganho rápido de massa muscular: especulações sobre a testosterona são frequentes nas conversas de academia, nas redes sociais e nos sites de buscas. Porém, o que se fala nem sempre bate com a realidade.
Esse hormônio é essencial para o corpo, mas o uso por conta própria ignora riscos que podem ser irreversíveis. Para entender o que é fato e o que é fake, conversamos com Eduardo Carvalhal, urologista e chefe do Serviço de Urologia do Hospital Moinhos de Vento.
O que é a testosterona e como ela muda com a idade?
A testosterona é o principal hormônio sexual masculino. Produzida principalmente nos testículos — e em pequena quantidade nas glândulas suprarrenais —, ela está relacionada à libido, à atividade sexual, à massa muscular, à saúde óssea e ao desenvolvimento de características masculinas ao longo da vida.
Quando a testosterona começa a cair?
No envelhecimento, especialmente a partir dos 40 anos, Carvalhal explica que ocorre uma redução gradual da produção de testosterona. Esse processo é conhecido como Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM) e acontece de forma progressiva e individualizada.
“Alguns homens apresentam uma queda mais precoce e intensa, enquanto outros mantêm níveis adequados ao longo da vida”, diz.
Os homens de hoje têm menos testosterona que os do passado?
Estudos indicam que sim. Além do envelhecimento individual, observa-se um declínio geracional. Uma ampla revisão científica publicada em 2022 no periódico Human Reproduction Update confirmou que os níveis hormonais e a saúde reprodutiva masculina vêm caindo de forma acelerada em todo o mundo.
Especialistas associam esse fenômeno não apenas ao estilo de vida, mas à exposição a disruptores endócrinos — substâncias químicas presentes em plásticos e na poluição que interferem no equilíbrio hormonal das novas gerações.
Apesar desses dados, a redução da testosterona deve ser confirmada individualmente por exames e avaliação médica, já que variações não significam, por si só, deficiência hormonal. O uso de testosterona sem indicação pode levar à infertilidade, trombose, maior risco cardiovascular, além de acelerar o crescimento de tumores de próstata já existentes.
O que pode causar testosterona baixa?
Segundo Carvalhal, a principal causa da diminuição dos níveis de testosterona é o envelhecimento natural. “Alguns medicamentos, como os opioides, doenças testiculares e a retirada de um ou ambos os testículos podem levar à deficiência hormonal”, exemplifica.
Outros fatores, como o diabetes tipo 2 e a obesidade, também podem influenciar. Um estudo publicado na revista científica Cureus em 2024 mostrou que homens com obesidade apresentavam níveis mais baixos de testosterona e maiores índices de inflamação crônica, sugerindo uma relação direta entre excesso de gordura corporal e redução hormonal.
Sinais de testosterona baixa
Os sinais mais comuns de testosterona baixa são:
- fraqueza muscular;
- cansaço;
- falta de disposição;
- queda da libido;
- alterações de humor.
Porém, esses sintomas são pouco específicos e também podem estar associados a outras condições, como ansiedade e estresse. Isso reforça a importância de uma avaliação médica adequada.
Quando a reposição de testosterona é indicada?
A reposição de testosterona pode ser indicada em casos de hipogonadismo, condição em que o organismo não produz testosterona em quantidade suficiente. O diagnóstico é feito com base na associação entre sintomas e exames laboratoriais.
“Quando corretamente indicada, a reposição hormonal pode melhorar sintomas como perda de libido, fadiga e redução da massa muscular”, lista Carvalhal. No entanto, o tratamento deve ser individualizado e ter acompanhamento médico constante para garantir segurança e monitorar possíveis riscos e efeitos colaterais.
A reposição de testosterona é para sempre?
Se o corpo deixa de produzir testosterona em níveis adequados, a reposição geralmente é para a vida toda e exige acompanhamento médico rigoroso.
Riscos da reposição de testosterona
Entre os principais riscos está o aumento dos glóbulos vermelhos, que pode deixar o sangue mais grosso (a chamada hiperviscosidade sanguínea) e elevar o risco de trombose.
Em homens mais jovens, o uso excessivo ou prolongado de testosterona também pode levar à diminuição dos testículos e até comprometer a fertilidade.
Além disso, apesar de a testosterona não causar câncer de próstata, ela pode acelerar o crescimento de tumores que já existiam sem diagnóstico. “Antes de iniciar a reposição hormonal, é indispensável fazer uma avaliação completa, incluindo exames da próstata”, orienta o especialista.
O que acontece quando se toma testosterona sem indicação?
Carvalhal alerta para a banalização do uso da testosterona, principalmente para fins estéticos, ganho rápido de massa muscular ou melhora da performance sexual em pessoas com níveis hormonais normais. “Nesses casos, os benefícios costumam ser limitados e os riscos podem superar as vantagens.”
Segundo o médico, o uso sem indicação adequada pode aumentar o risco de problemas cardiovasculares e trombose, além de provocar infertilidade, alterações hormonais e outros efeitos adversos ao organismo.
Testosterona “feminina”
Mulheres também produzem testosterona?
Embora seja mais associada ao organismo masculino, a testosterona também está presente nas mulheres, em níveis cerca de 15 vezes menores. Nelas, o hormônio é produzido pelos ovários, pelas glândulas suprarrenais e também em pequenas quantidades em outros tecidos do corpo.
Mulheres podem usar testosterona?
A única indicação médica aprovada do hormônio é para o tratamento da falta de desejo sexual na pós-menopausa. Apesar disso, o uso para ganhar músculos ou definir o corpo tem crescido entre mulheres jovens, aumentando o risco de efeitos relacionados ao excesso de hormônio masculino, como acne, alterações na voz e irregularidade menstrual.
A reposição de testosterona ajuda no foco de pessoas autistas?
Atualmente, não existe recomendação médica ou científica para esse tipo de indicação.
Qual o risco de usar testosterona apenas para ganhar massa muscular?
O uso sem indicação médica pode causar desde acne e queda de cabelo até complicações cardíacas graves, como o aumento do risco de infarto e trombose, além de afetar a fertilidade.
Como aumentar a testosterona?
Maus hábitos como sedentarismo, tabagismo, alimentação desequilibrada e sono de má qualidade podem antecipar e agravar a queda natural dos níveis hormonais.
Desta forma, mudanças de hábitos são a forma mais consistente de subir os níveis do hormônio para além das terapias médicas.
Uma meta-análise (método que analisa os resultados de diversos estudos independentes) publicada no Journal of Endocrinological Investigation apontou que exercício moderado e intenso aumenta a testosterona total e livre logo após o treino — apesar de o efeito passar depois de aproximadamente 30 minutos.
Além disso, exercícios aeróbicos aumentaram significativamente a testosterona em homens com sobrepeso, mostrou uma pesquisa publicada na revista Journal of Clinical Biochemistry and Nutrition. Dormir bem e fazer bom manejo de estresse também são formas conhecidas.
Suplementos para aumentar testosterona funcionam?
Os estudos sobre o assunto são limitados e com evidências fracas: enquanto alguns tiveram efeitos geralmente pequenos, os que tiveram algum resultado foram feitos com poucas pessoas. Por isso, não se pode afirmar que eles funcionam.
Em caso de dúvidas, consulte seu médico de confiança para fazer as dosagens e saber qual é o tratamento mais adequado para o seu caso.mo forma de compensação.
Fonte: www.anahp.com.br



